Café com fofocas, bem apimentado!

Estou terminando a leitura do livro “Mulheres que correm com lobos” de Clarissa P. Estes, e um capítulo me chamou muito a atenção. Todo o livro é pra lá de interessante, principalmente para nós mulheres, mas deveria ser lido também por homens, até para eles terem uma noção do que significa uma mulher selvagem (e para quem passa a viver com uma, esse livro é quase um manual de sobrevivência, kkkk). Mas como disse, um capítulo em especial me chamou a atenção a ponto de vir fazer um post sobre: o capítulo 11, intitulado O cio – a recuperação de uma sexualidade sagrada.

Muitos de nós já sabe (e quem ainda não sabe, vai ficar sabendo agora) que Sexualidade é muito mais que sexo. Este último é um dos fatores da Sexualidade como um todo. E este capítulo do livro, que é a interpretação de uma história intitulada Deusas Sujas, fala do prazer, da libido, do riso solto e verdadeiro, da conversa entre mulheres, do obsceno (não como algo errado e impuro, mas como algo que gera prazer, emoção agradável). Ela traz à tona vários assuntos que a um tempos atrás eram tabus, e ser debatido por mulheres então nem se fala. É comum vermos homens reunidos em bares, restaurantes ou até em casa mesmo, para conversar sobre tudo, falar “bobagens” e rir até doer a barriga, mas era incomum ver mulheres fazerem isso. Era incomum (ou achávamos que era). Hoje em dia já vemos mulheres em cafés, reunidas, dando gargalhadas das “bobagens” que falam; eu e minhas amigas fazemos isso semanalmente e quando não fazemos, sentimos muita falta. E sim, nós falamos sobre sexo, contamos piadas “sujas”, falamos de relacionamentos, de filmes, de política, de futebol, de roupas, de trabalho, de casa, de filhos e de tudo o que vier na cabeça e na vulva (sim, você leu certo, na vulva, porque assim como os homens, às vezes, pensam com a cabeça de baixo, nos pensamos com a vulva e se alguém se espantar com isso, pode se considerar arcaico ou arcaica).

Antigamente, existia uma tradição alemã chamada Kafeeklatsch que era um encontro entre senhoras para tomar café e “fofocar” e acredita-se que ali falavam de tudo. Pode ter nascido aí a tradição do famoso Chá das Cinco, mas que acabou mudando com o tempo, pois na Alemanha ele era exclusivamente feminino e frequentado por senhoras já casadas (as mais novas ainda não podiam participar justamente por causa dos “assuntos” ali tratados). Todas sabemos que o Chá de Bebê (ou de Fraldas como é chamado em alguns lugares) e o Chá de Panelas, além da entrega de presentes para a futura mãe ou para a futura esposa, são na verdade uma desculpa para mulheres se reunirem e falar sobre assuntos apimentados. Desenhar genitália na barriga da grávida é até um clichê! Mas é muito divertido, tenho certeza que todas saem mais leves desses encontros. Existe agora o tal do Chá de Lingerie, e outros ainda, todos cada vez mais “obscenos” no sentido mais bobo da palavra.

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Precisamos desses momentos, tanto nós mulheres quanto os homens. Rir é um dos melhores remédios que existem, portanto, gargalhar é uma verdadeira farmácia. E temos que entender de uma vez por todas que Sexualidade é uma coisa sagrada! Falar sobre sexo, libido, prazer, obscenidade, sexualidade, sensualidade, vulgaridade, órgãos genitais, reprodução, vida a dois, tudo isso é muito necessário e importante. Nesses momentos tiramos as máscaras e despimos esses assuntos de seus tabus, para torná-los mais naturais. E na verdade eles são naturais, mas algumas pessoas ainda não se sentem a vontade de falar abertamente, existem casais que não conversam abertamente sobre isso (o que eu acho um absurdo!) então para algumas pessoas esses momentos são como “lavar a alma”, são válvulas de escape do dia-a-dia corriqueiro. Viva o café com fofocas!!!!

Segue abaixo algumas passagens do livro que sublinhei e acho interessante compartilhar:

O cio da mulher não é um estado de excitação sexual, mas um estado de intensa consciência sensorial que inclui sua sexualidade, sem se limitar a ela. P.249

Sabemos a partir da cinesiologia e de terapias do corpo, como a Hakomi, que respirar significa conhecer nossas emoções e que, quando queremos parar de sentir, interrompemos a respiração, prendendo-a. p.250

(…) obsceno nos termos em que estamos usando a palavra, ou seja, uma espécie de encanto sexual/sensual que gera emoções agradáveis. P.250

(…) a pequena deusa Baubo nos dá a idéia interessante de que um pouco de obscenidade pode ajudar a desfazer uma depressão. E é verdade que certos tipos de riso, que provêm de todas as histórias que as mulheres contam umas para as outras, histórias que são tão apimentadas ao ponto de serem de total mau gosto… essas histórias ativam a libido. Elas acendem o fogo do interesse da mulher pela vida. A deusa do ventre e a gargalhada são o que procuramos. P.252

Há algo numa risada sexual que é diferente de uma risada sobre temas mais educados. Uma risada “sexual” parece chegar longe e fundo na psique, sacudindo todos os tipos de coisas, tocando nos nossos ossos e fazendo com que uma sensação agradável corra por nosso corpo. Ela é uma forma de prazer selvagem que está à vontade no repertório psíquico de qualquer mulher. P.254

O sagrado e o sensual/sexual vivem muito próximos um do outro na psique,

pois eles despertam nossa atenção por meio de uma sensação de assombro, não por alguma racionalização, mas pela vivência de alguma experiência física do corpo, algo que instantaneamente ou para sempre nos muda, nos sacode, nos leva ao ápice, abranda nossas rugas,-nos dá um passo de dança, um assobio, uma verdadeira explosão de vida. P.255

Esse é sem dúvida o outro benefício das piadas e dos risos compartilhados das mulheres. Tudo se torna um remédio para os tempos difíceis, um fortificante para mais tarde. É uma diversão boa, limpa, suja. Podemos imaginar o sexual e o irreverente como algo sagrado? Podemos, especialmente se atua como medicamento. P.256

Blessed be! Namastê!

Livro: Mulheres que correm com os lobos – mitos e histórias do arquétipo da mulher selvagem. Clarissa Pinkola Estes. Tradução de Waldéa Barcellos. Ed. Rocco, RJ, 1999

Imagem: Wikimédia

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