Salve Oyá!

Sim, eu adoro desfiles de Carnaval e esse ano não consegui acompanhar como em outros anos, mas minha torcida é sempre para as mesmas (nessa ordem): Mangueira, Mocidade, Portela. E viva Estação Primeira de Mangueira, que ganhou (com merecimento) o Carnaval desse ano homenageando uma das Divas do Panteão brasileiro: Maria Bethânia.

Por que estou fazendo um post sobre isso? Porque é a Mangueira, porque o tema foi uma mulher brasileira, porque mostrou a beleza do sincronismo religioso brasileiro (muito presente na vida de Bethânia), porque minha veia estilística dos tempos de moda ferve, borbulha quando vê a beleza e a criatividade de um trabalho que soube mostrar maravilhosamente bem um tema como esse. Não sou de pular Carnaval (não mais, já fui, admito, kkkk), mas sempre tive fascínio pelos desfiles, imaginar como que um Carnavalesco e sua equipe fazem para traduzir em fantasias e alegorias um tema, contar uma estória em 1 hora e 30 minutos (acho que é isso) através da arte (é mais ou menos isso que se faz em uma coleção de moda, em um desfile de moda). Eles trabalham, minha gente, e muito. Eles se dedicam. Eles estudam. As pessoas gostam de ver somente o lado ruim das coisas, mas esquecem de ver o outro lado da moeda, um outro ponto de vista. Só pensam no dinheiro gasto, no exibicionismo de peitos e bundas; não pensam que tem gente que recebe por esse trabalho, que aprendeu coisas incríveis através dele, que dribla a crise e a violência todos os dias para se dedicar a esta arte; que preferiu entrar para a escolinha de música, ou dança, ou costura, ou marcenaria, da Escola de Samba do bairro, ao invés de ficar na rua trabalhando como laranja para traficantes, ou ingerindo drogas nas esquinas. Mas enfim, isso é outra história. Vamos ao desfile da campeã, que me emocionou!

O enredo: Maria Bethânia, a Menina dos Olhos de Oyá; uma homenagem aos 50 anos de carreira da cantora baiana. Nas alas, carros e alegorias, toda a religiosidade dela, suas músicas mais famosas, sua origem nordestina, sua vida, sua obra. Dona Canô, mãe de Bethânia, católica fervorosa; Bethânia foi inciada no Candomblé, então sempre uniu as duas religiões em sua vida. A primeira parte do desfile trouxe exatamente essa junção. Depois vieram as músicas, a carreira, ela.

As primeiras fantasias e alegorias trouxeram muita palha, vime, tons de dourado, amarelo, marrom, representando a parte Candomblé; em seguida entrou diversos tons de rosa, vermelho, branco e verde representando o Catolicismo; voltou a mesclar amarelo, laranja e ocre na parte da cultura nordestina e um mix de cores para falar da carreira e vida de Bethânia. Tudo divino!

Destaques:

  • A Comissão de Frente: A Mãe do Entardecer, O Balé das Guerreiras de Oyá. Trouxe 12 bailarinas representando as guerreiras africanas e um elemento cenográfico com uma Deusa Oyá no topo, vestida de vermelho.
  • Primeiro Casal de Mestre-Sala e Porta-Bandeira: Squel Jorgea (neta de Xangô da Mangueira), que abalou geral surgindo careca (fiquei bege quando soube que era uma careca de látex, muuuuito perfeita), e Raphael Rodrigues, simbolizavam o Axé do Candomblé; ela estava com pinturas de Carybé, em uma referência as mulheres marcadas com tinta no dia da iniciação que o artista retratou em suas aquarelas, e uma única pena rosa na testa, simbolizando a realeza; ela representava uma Iaô, filha de Santo.
  • O Carro Abre-Alas: Oyá e Oxum. Bethânia é filha de Oyá (Iansã), foi consagrada por Mãe Menininha de Gantois (se lê gantuá), que era filha de Oxum; dessa forma, essas duas divindades estão muito presentes na vida de Bethânia. Na frente do carro, búfalos, pois conta a lenda que Iansã se escondeu no couro de um búfalo para enganar a morte; no carro, as cabeças de búfalo estão em bronze, metal sagrado de Iansã; a segunda parte do carro é dedicada a Oxum, representada por uma integrante, se banhando, pois Oxum é a Deusa das Águas Doces e Cachoeiras.
  • Vieram Alas dividas em: Ala dos Orixás Masculinos, Ala dos Orixás Velhos, Ala dos Orixás Femininos, fechando o setor de Candomblé.
  • Um tripé inicia a parte católica: Estandarte de Devoção Católica, trouxe a imagem de São João e Santa Bárbara; em seguida uma Ala de Crianças, representando Cosme e Damião, lindos!
  • Ala das Baianas – Viva Santa Bárbara; trazia uma pintura da santa nas saias e balangandãs nas costas; o ouro velho das igrejas barrocas da Bahia estava presente na cor da fantasia, e elas traziam rosas vermelhas no corpo, em referência a Santa Bárbara.
  • O segundo carro- Altar de Devoção Católica; uma referência a devoção de Bethânia a Maria, mãe de Jesus, e ao Menino Deus; anjos barrocos formavam colunas sob o carro.
  • Achei interessante uma ala que fazia referência à Voz do Menino Brasil – Indígenas; ao invés de trazer uma fantasia em tons terrosos, ou palha, veio toda em tons de rosa, uma ousadia que deu certo.
  • Tripé Balangandã – Símbolo de Negritude, com vários amuletos de sorte, como figa, pimenta, osso…
  • Em seguida, o Carro Voa Carcará, fazendo referência a música que lançou Maria Bethânia.
  • A Bateria e sua Rainha estavam de Fera Ferida, outra música icônica na carreira da cantora.
  • Bethânia veio em um carro que representava o circo, pois ela, quando criança se encantou com o circo que passou pela cidade e queria ser artista circense.

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Samba-Enredo:

Quem me chamou? Mangueira
chegou a hora, não dá mais pra segurar
Quem me chamou? chamou pra sambar
Não mexe comigo, eu sou a menina de Oyá
Não mexe comigo, eu sou a menina de Oyá

Raiou… Senhora mãe da tempestade
A sua força me invade, o vento sopra e anuncia
Oyá… Entrego a ti a minha fé
O abebé reluz axé
Fiz um pedido pro Bonfim abençoar
Oxalá, Xeu Êpa Babá!
Oh, Minha Santa, me proteja, me alumia
Trago no peito o Rosário de Maria
Sinto o perfume… Mel, pitanga e dendê
No embalo do xirê, começou a cantoria

Vou no toque do tambor… ô ô
Deixo o samba me levar… Saravá!
É no dengo da baiana, meu sinhô
Que a Mangueira vai passar

Voa, carcará! Leva meu dom ao Teatro Opinião
Faz da minha voz um retrato desse chão
Sonhei que nessa noite de magia
Em cena, encarno toda poesia
Sou abelha rainha, fera ferida, bordadeira da canção
De pé descalço, puxo o verso e abro a roda
Firmo na palma, no pandeiro e na viola
Sou trapezista num céu de lona verde e rosa
Que hoje brinca de viver a emoção
Explode coração

Quem me chamou… Mangueira
Chegou a hora, não dá mais pra segurar
Quem me chamou… Chamou pra sambar
Não mexe comigo, eu sou a menina de Oyá
Não mexe comigo, eu sou a menina de Oyá.

 

Fotos: a maioria tirei do vídeo da Globo, outras do site do G1 e O Globo.

 

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