Essa senhora chamada Árvore

Desde pequena, sempre fui fascinada e apaixonada pelas árvores. Diversas vezes me peguei admirando-as, abraçando-as e conversando mentalmente com elas.

Árvores são seres imponentes, poderosos e ao mesmo tempo suaves e doces. Sua presença nunca é sutil, independentemente do tamanho. Para mim, é como se estivesse diante de uma anciã muito sábia, calejada, que tudo vê, ouve e percebe, mesmo quando parece estar distraída; sabe sobre tudo, pois já viu e viveu tudo, mas está sempre silenciosa… espalha seu conhecimento apenas para quem realmente merece e está disposto (ou precisa) a ouvir.

Passei toda minha infância visitando a casa de meus avós maternos, que ficava embaixo de enormes araucárias e tinha veneração por aqueles pinheiros, apesar de ter muito medo também, de que eles caíssem sobre a casa nos dias de tempestade. Quando chovia e ventava forte, eu permanecia na janela, olhando para fora e conversando mentalmente com os pinheiros, pedindo para que não caíssem sobre nós. Via eles balançando vorazmente, de um lado a outro, parecia uma dança enlouquecida, ouvia seus estralos, via as grinfas e as pinhas caindo como bombas no chão, me arrepiava toda, quase chorava de medo, e quando a tempestade passava e tudo ficava calmo, como se nada tivesse acontecido, eu agradecia; ia lá fora ajudar meu avô a juntar as grinfas em montes, para limpar o lugar, recolher as pinhas e os pinhões quando era época, para assá-los na chapa do fogão a lenha ou cozinhá-lo (e de vez em quando, com muita sorte, se meu avô estivesse de bom humor, assávamos em uma sapecada). Caminhava entre os pinheiros feliz, porque nenhum deles tinha caído!

Hoje, onde eu moro, atrás de minha casa tem um conjunto de eucaliptos, muito altos e meu computador – onde permaneço boa parte do tempo por trabalhar muito tempo online – fica na janela que tem vista para eles. Me pego muitas e muitas vezes olhando-os, em silêncio, apenas contemplando seu bailado, ora suave, ora enérgico. Até hoje, ainda gosto de permanecer em janelas quando há tempestade, como se fazendo isso consigo “evitar” que árvores caiam e raios atinjam a casa. Uma infantilidade, eu sei, mas me sinto melhor assim do que não olhar para a tempestade. Como se estivesse encarando o medo de frente.

Escrevi este post, poque estou terminando o livro “A travessia das feiticeiras” e cheguei no seguinte parágrafo, que me tocou muito:

O sentimento que eu passara a sentir pelas árvores estava além das palavras. Eu tinha certeza de minha capacidade de assimilar seu humor, saber sua idade, seus insights e o que sentiam. Podia comunicar-me diretamente com uma árvore, através de uma sensação proveniente do âmago de meu corpo.
Freqüentemente a comunicação tinha início com um transbordamento de puro afeto, quase tão intenso quanto o que sentira por Manfred, afeto este que brotava de mim sempre de maneira inesperada e espontânea. Então, eu podia sentir as raízes da árvore entrando na terra. Eu sabia se elas precisavam de água e quais raízes se estendiam na direção da fonte de água subterrânea. Podia sentir como era viver buscando a luz, aguardando-a, desejando-a, ou como era sentir o calor, o frio ou ser devastada pelos raios e tempestades. Aprendi o que significava nunca ser capaz de deslocar-se de seu ponto de destino, o que significava ser silenciosa, sentir através da casca, das raízes e absorver a luz através das folhas.
Eu sabia, sem sombra de dúvida, que as árvores sentem dor; e sabia também que, uma vez iniciada a comunicação, as árvores se derramam, afetuosas.

Feliz sou porque tenho tantas árvores sempre perto de mim! Fico imaginando como deve ser a vida de pessoas que moram em lugares que quase não tem árvores, como deve ser triste! Gratidão Mãe Terra pelas sábias Árvores!

Abaixo fotos das árvores aqui de casa, em vários momentos: sol, chuva, neve…

Blessed be! Namastê!

Citação:
A Travessia das Feiticeiras; Taisha Abelar, com prefássio de Carlos Castañeda; Ed. Nova Era; 1992
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